O termo Open Energy vem sendo muito difundido recentemente no setor de energia, estando relacionado às discussões em torno da abertura do mercado e à transição energética, em especial à digitalização e democratização.
Open Energy nada mais é do que o compartilhamento de informações entre consumidores com as geradoras, distribuidoras e comercializadoras de energia, no molde semelhante ao do Open Banking.
Convidamos Nayanne Brito, especialista no assunto e protagonista do movimento Open Energy no Brasil, para uma entrevista exclusiva sobre como esse novo conceito pode contribuir de forma inovadora com a transição energética e modernização do setor elétrico brasileiro.
De acordo com o Ministério de Minas e Energia, quase 50% da energia produzida no Brasil vem de fontes renováveis. A matriz brasileira é, sem dúvida, uma das mais renováveis do mundo, com um indicador de 48%, o que é muito superior ao que vemos ao redor do mundo. A maior parte dessa energia ainda é produzida em usinas hidrelétricas, mas outras fontes como solar e eólica vêm ganhando cada vez mais espaço.
Apenas para trazer a dimensão deste crescimento: O setor eólico atingiu a marca de 21 GW de capacidade instalada em janeiro de 2022 e o setor fotovoltaico atingiu a marca de 14 GW de capacidade instalada em março de 2022.
Quando falamos de matriz elétrica esse número é ainda mais expressivo. Atualmente, 80% da geração de energia elétrica do Brasil é oriunda de fontes limpas de energia e esse número deve crescer gradativamente até 2050.
Mas então como falar em transição energética no Brasil sabendo que somos um país privilegiado por sua matriz renovável?
Nayanne Brito reforça que o Brasil possui a maior densidade de recursos renováveis do mundo, sendo que grande parte da nossa vocação renovável está vinculada às hidrelétricas. “Porém, não podemos sentar confortavelmente nessa posição justamente por todo o potencial que nós temos de ser a potência mundial de energia limpa.” acrescenta.
Com as metas de descarbonização que foram apresentadas pós-COP26 – e algumas reforçadas na COP27, outras fontes como a biomassa vegetal e resíduos orgânicos também estão ganhando destaque e, nos próximos anos, a perspectiva é ver nossa matriz ainda mais diversificada e limpa.
“Temos características que fazem com que nossa transição seja mais suave, como por exemplo grandes reservatórios já prontos, um país continental e complementar em fontes primárias, além de linhas de transmissão que, enfileiradas são suficientes para dar 4 voltas no planeta Terra.” destaca Nayanne Brito.
Os D’s da transição energética.
Existem vários outros conceitos por trás da transição energética que podem ser considerados impulsionadores da economia sustentável como os famosos D’s da energia.
A especialista convidada, Nayanne Brito, ressalta que a descarbonização e descentralização no setor elétrico são os D’s mais lembrados e executados. Como citado anteriormente, nossa matriz é fortemente renovável e Geração Distribuída tem crescido a passos largos nos últimos anos, ultrapassando a potência instalada de Belo Monte, uma das maiores usinas do mundo.
No entanto, a digitalização ainda engatinha em nosso país. Para Nayanne Brito, o relacionamento do consumidor com energia é completamente arcaico, baseado em um ponto de contato mensal, por meio de uma conta de luz que ninguém entende integralmente e sem nenhum grau de liberdade para o consumidor. “Aqui mora o maior potencial de inovação: temos uma das maiores demografias do mundo, com acesso à internet que ultrapassa 70% da população. O potencial desse D da transição energética no país é transformacional.” complementa.
Atrelada ao ODS7, apesar de não oficialmente ser considerado um D da transição energética, a democratização da energia no Brasil diz muito sobre a modernização do setor, estando relacionada à abertura do mercado e ao movimento Open Energy.
Atualmente, o mercado livre de energia só é acessível a grandes consumidores. Estamos percebendo uma mudança gradativa no setor de energia, mas ainda estamos longe da liberalização total do mercado.
Nayanne exemplifica a democratização e maior acesso à energia quando fala da geração distribuída no país. “A geração distribuída nas modalidades compartilhada e de múltiplas unidades consumidoras, somadas representam menos de 1% do total de GD no país – essas são as modalidades que permitem acesso democrático.” exemplifica a especialista convidada.
No entanto, para avançarmos na democratização precisamos que o mercado livre de energia seja acessível para todos. O primeiro passo está dado com a consulta que o Ministério de Minas e Energia para abertura do mercado de alta tensão já em 2024. Precisamos apoiar esse movimento do MME e continuar avançando no sentido da abertura total.
Um outro D da transição energética bem citado por Nayanne é o D da Dignidade. “Acesso a energia é caro no Brasil, ano passado com a elevação de preços do gás e das contas de luz nos fez retroceder anos: crescimento de utilização de lenha e população mais vulnerável, deixando de ter acesso a água encanada devido ao alto preço para acionamento de bombas foram situações que fomos submetidos a vivenciar. É inaceitável que isso aconteça em um país de tanto potencial energético como o nosso.” complementa.
Open Energy: uma estratégia inovadora para acelerar o setor de energia
A discussão de Open Energy deve avançar em paralelo para garantir que a abertura aconteça com menores custos de transação – isso também promove o esquecido D da democratização.
Na prática, Open Energy garante a interoperabilidade dos dados do setor de energia. Isso permite por exemplo que, caso consumidores desejem, podem conectar suas informações com geradores para obtenção de oferta de contratos de energia personalizados para sua curva de carga, integração com programas de eficiência energética e até competição entre vizinhos para ver quem economiza mais energia. Open Energy expande as fronteiras do mercado de energia.
Sendo assim, é possível dizer que Open Energy é uma forma estratégica e inovadora de incentivar a modernização do setor de energia. “Open Energy é um ótimo primeiro passo por que permite que serviços de energia sejam oferecidos apenas com tecnologia – sem os suntuosos investimentos em infraestrutura que normalmente empresas de energia precisam ter. Esse movimento sozinho já abre uma grande janela de inovação.” reforça Nayanne Brito.
Nayanne ainda destaca a importância de iniciativas como a do Energy Connection que promove união de interesses entre grandes empresas e empreendedores inovadores. “Não existe mais um mundo em que grandes corporações resolvem todos os problemas, cada empresa tem uma especialidade e quanto mais especialista, melhor e mais eficiente ela é. Permitir essa especialização é benéfico para toda a sociedade.” acrescenta.
A inovação traz oportunidades essenciais de redução do custo global do setor de energia como com a eficientização de processos, redução de custo de transação e integração com outros setores da economia. Essa movimentação é chave para redução dos custos com energia e fundamental para transição energética.
Quando falamos de gargalos no setor de energia atrelados à inovação aberta, Nayanne menciona que ainda precisamos avançar na educação dos fundos de venture capital, por exemplo, que apesar de super regulados, ainda parecem tímidos no setor de energia. Igualmente há um desafio de formação de mercado, os consumidores não estão acostumados a ter poder sobre o consumo de energia. Com isso, a boa comunicação, e a proximidade com os clientes são desafios que apenas começamos a tatear. “A boa notícia é que quem chega primeira se serve primeiro, formar um mercado é desafiador, mas também entrega muito resultado.” destaca Nayanne Brito.
Sobre Nayanne Brito:
Nayanne Brito é formada em engenharia de energia com atuação no mercado de energia desde 2013. Possui experiência internacional no Canadá e na França. É parte do time de fundadores da Lemon Energia, startup que democratiza o acesso à energia limpa no Brasil.
Tem como propósito tornar o Brasil um líder global em energia renovável.